sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Como Nascem os Sonhos - O Prelúdio do Sonhar

O PRELÚDIO DO SONHAR

(Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais, ao longo da história, pode não ser mera coincidência)

Você diz que não vai lutar
Porque ninguém iria lutar por você
-

E você acha

Que não há amor suficiente
E ninguém para receber
-

E você tem certeza

Que se magoou por muito tempo
Você não tem mais nada à perder
-

Então você diz

Que não vai lutar
Porque ninguém iria lutar por você...

///

“Mãos macias”, foi a primeira coisa boa a respeito dele que eu registrei na época. “Mãos cheirosas e macias. Parecem mãos de garota. Que esquisito...”

Um indicador de unha comprida e manicurada seguiu o contorno do meu supercílio e eu vi quando ele tentou colocar um pedaço de esparadrapo no corte oriundo do soco que um dos meus agradáveis colegas praticantes de bullying havia desferido no meu rosto. Obviamente, eu não iria andar com aquele troço na cara, então o afastei.

— A gente precisa voltar logo pra escola. O sinal já deve ter tocado.

Em um mês de convivência (forçada), aquele devia ser para ele o primeiro sinal de que eu sabia fazer mais do que decorar o livro de ciências feito um CDF introspectivo e com tendências psicóticas. Algo como, sei lá, ter um diálogo como uma pessoa normal.

— Bom... — seus olhos escuros se arregalaram um pouco e durante breves segundos, aparentou não saber o que dizer. — Então tá! Vamos nessa.

Joguei a mochila no ombro esquerdo e trincando os dentes com força comecei a caminhar tranquilamente apesar da enlouquecedora dor na minha perna direita. O filho da puta do Guto havia pisado nela com toda a vontade de seu corpo — e, é claro, com aquelas malditas chuteiras da Nike que mais parecem sinalizadores de pista de pouso.

///

Ele sentou do meu lado na hora do recreio e pude ouvir com clareza quando os “comentários risonhos” começaram. Era um tal de “Olha! O Sr. Esquisito e o Traveco estão no maior chamego ali atrás!” que tive de me conter pra não exibir um dedo do meio.

Pode parecer bem cretino da minha parte, mas de repente me arrependi de estar sendo legal com aquele garoto. Se é que ele era um garoto mesmo.

Fala sério, o cara usava jeans de mulher! E ainda por cima com aquelas perninhas de aranha... Você pode imaginar a situação ridícula que ficava. Mas acha mesmo que ele ligava? Ligava tanto quanto eu quando olhavam feio para minhas munhequeiras de skatista e fones de ouvido que pareciam ter sido comprados do Dumbo.

— Você gosta de Linkin Park? — ele perguntou estendendo as pernas diante do corpo relaxadamente.

Eu não esperava que ele puxasse um assunto tão banal quanto aquele. Na verdade a reação esperada para uma pessoa que tinha acabado de presenciar um ato de bullying seria, no mínimo, a famosa pergunta:

“Por que você ainda não contou isso pra ninguém?”

Eu poderia dar um milhão de respostas, mas aquele garoto não estava perguntando sobre o ato de humilhação a qual três caras vinham me submetendo desde ano passado, então para mim estava ótimo. Respondi simplesmente que sim, eu gostava muito de LP. Não completei, no entanto, com a informação de que me identificava com as músicas porque isso já estava escrito na minha testa.

Você pode achar o que quiser, pode dizer o que quiser, mas provavelmente foi que eu passei a gostar dele. Para tentar te fazer entender a razão disso, falar daquele assunto era quase como gritar as palavras “estupro” ou “pedofilia” no meio do Jardim de Infância, ou seja, era uma coisa que ia contra qualquer conduta de moral ou ética — ao menos no mundo do Matheus aqui. Eu preferia que ele ignorasse o fato de eu ter sido empurrado numa “rodinha”, tido todo o meu material jogado no chão (assim como pisoteado) e depois levado um soco que resultara num pequeno corte — seguido de um pisão na perna ruim que prefiro não mencionar muito.

Ignorar era melhor que cutucar as feridas que nunca cicatrizariam.

Mas nunca tarda a chegar a hora em que as palavras procuram o caminho e saem, invariavelmente, de uma forma tão horrível que é como levar uma pancada na cabeça.

Você querendo ou não, essa é a vida, mi amigo.

///

— Há quanto tempo eles fazem isso com você? — ele indagou tirando os olhos da capa do livro que eu lhe mostrava e tocando levemente na minha mão. Quando recuei daquele contato, sem encará-lo, sabia que ele havia reparado nos esparadrapos presos na ponta de meus dedos: aquilo ali era novidade.

— Sei lá, desde que descobriram ano passado que o “Esquisito” é bem melhor pra socar que um saco de areia. — respondi alisando o exemplar do “Pequeno Príncipe” em minhas mãos.

— Dói muito quando eles... você sabe...

Fiquei em silêncio e para minha surpresa, suas mãos se moveram pela lateral do meu corpo, buscando erguer a blusa e ver o que tanto eu massageava próximo das costelas — uma equimose que parecia o mapa da China, ganha depois de “tropeçar” e cair de lado numa pedra que despontava do calçamento quebrado.

O empurrei pra longe antes que me desse conta do que estava fazendo. Cruzando os braços no peito, minha voz soou trêmula quando ordenei:

— Nunca mais tente fazer isso.

Paulo me encarou com os olhos pesados de culpa e senti raiva dele, mesmo sabendo que não tinha esse direito. Ainda assim, algo que me tirava do sério era pena.

— Acho que está na hora de você ir — disse olhando-o fixamente, esperando que minha expressão pontuasse “você se tornou indesejado, cara”.

— Bem... então acho que vou sim — ele parecia estar sem-graça, mas isso não me faria voltar atrás no que dissera — Sua coleção de livros é legal, talvez eu possa trazer meus desenhos aqui da próxima vez... não é? — “Vai haver uma próxima vez, certo?”, seus olhos negros questionavam temerosos.

Eu podia ser um escroto, mas burro não era.

Aquele era o primeiro amigo em sete anos, então não deixaria que uma crise da minha parte estragasse tudo.

— Seria bom se trouxesse.

Seu sorriso foi tão espontâneo que me assustou exatamente como na primeira vez em que o vira. Parecia tão feliz que eu me perguntava como um ser humano podia ter um sentimento como aquele em tamanha quantidade dentro de si e não explodir.

Cheguei à conclusão de que nem todo mundo era um deprimido com tendências a auto-mutilação como eu.

Ele me abraçou e eu senti o típico calor humano confortável que me vinha sendo negado há mais tempo do que gostaria de lembrar. Desejei erguer as mãos e corresponder àquela demonstração tão honesta de carinho, mas era como se meus braços fossem feitos de pedra, e eu não era forte o suficiente para erguê-los.

Não, eu não era forte o suficiente para aceitar que aquele cara talvez tivesse encontrado uma fenda no meu coração oco (uma fenda feita de... carne) e talvez mesmo tivesse se tornado meu melhor amigo.

Eu ainda não era capaz de me expor tanto assim.

— Adeus.

— Tchau, Mad. Até amanhã!

E então ele saiu porta afora, acenando pra mim daquele jeito que o fazia parecer saído de um anime onde todo mundo é sempre muito animado e feliz, até quando seu pai é um doido que prendeu um demônio dentro do seu corpo ou coisa parecida.

Eu não acenei, apenas fechei a porta do apartamento.

Recostado contra ela de cabeça baixa, ouvi quando meu pai saiu da cozinha e fez sua “pergunta-clichê de pai”:

— Não está comendo aquele veado está?

Desencostei da porta e com a perna mancando um pouco mais que de costume, fui seguindo para o corredor.

— Espero que não apareça com Aids porque se aparecer vou te colocar pra fora de casa e... Não feche a porra porta enquanto eu falo com você, bicha de merda!

Tornei a abrir a porta do quarto e fiquei parado no vão esperando que ele terminasse algo que nem sequer sabia ter começado.

— O que foi?

— É bom que os pais daquele veadinho não apareçam aqui acusando você de ter tirado a virgindade do filhinho deles, está me entendendo, sua baitola? — ele questionou seriamente com o dedo no meu peito.

Sem expressar reação alguma, perguntei se “posso ir pro meu quarto agora?”. O coroa resmungou mais alguma coisa sobre Deus mandar pro Inferno todos os queima-roscas e eu tornei a entrar no meu mundo de sossego, música e mangás.

Infelizmente não fui rápido o suficiente e tive que escutá-lo dizer:

— Igualzinho a vadia da irmã.

Meu punho se fechou e foi de encontro a parede do lado quando já me encontrava fora do seu campo de visão.

A playlist que eu havia programado começou a tocar, pude ouvir o som saindo dos fones de ouvido do Dumbo.

Sem mais nada a fazer além disso, me sentei diante do computador e Linkin Park deslizou sob a forma de ondas sonoras para dentro do meu ser cada vez mais, desfazendo a testa vincada precocemente que tinha.

A imagem de Paulo observando fascinado as capas dos exemplares que eu guardava nas minhas prateleiras surgiu inconscientemente e pensei que talvez pudesse fazê-lo gostar de Stephen King também.

Diante daquele pensamento eu acabei tendo de admitir: é, definitivamente, aquele cara tinha virado meu melhor amigo.

///

Você diz que o peso do mundo
Te impediu de não se importar

-
E você acha

Que compaixão é culpa
E você nunca vai mostrar

-
E você tem certeza

Que se feriu de um jeito
Que ninguém nunca vai saber

-
Mas um dia

O peso do mundo
Lhe dará a força para continuar...

3 comentários:

  1. nossa,..tu escreveu tudo isso em um fõlego só?

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  2. saudades, menino malvado! reapareça!

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  3. Saudades de ti Sara. Cade tu?
    O pessoal lá no meu site está perguntando por vc.

    http://rainier.posterous.com/escritores-mais-ativos-do-o-nerd-escritor-apo

    E ai, quando vai aparecer de novo?

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